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Billie Eilish puxa onda de tristeza e melancolia na música – 31/01/2026 – Ilustrada

Billie Eilish puxa onda de tristeza e melancolia na música - 31/01/2026 - Ilustrada

Billie Eilish é a princesa do Grammy desta década. Aos 24 anos recém-completados, a cantora acumula nove estatuetas, 34 indicações e um feito histórico —em 2020, se tornou a pessoa mais jovem e a primeira mulher a vencer, na mesma noite, as quatro principais categorias, álbum do ano, gravação do ano, canção do ano e artista revelação. Também foi a primeira artista nascida no século 21 a conquistar um gramofone dourado.

Há cerca de dez anos, ainda adolescente, Eilish arrebatou o público com uma fórmula que viria a se tornar familiar —músicas tristes, melancólicas, por vezes deprimidas. Suas letras orbitam temas como saúde mental, angústia, culpa e relações mal resolvidas, embaladas pelos vocais sussurrados.

Neste ano, Eilish concorre novamente ao Grammy, nas categorias gravação e canção do ano, com “Wildflower”, do disco “Hit Me Hard and Soft”. Liricamente, os temas não diferem muito dos que a cantora explorava aos 14 anos.

A música começa com desilusão —”as coisas desmoronam, e o tempo parte o coração”— e termina em cenas de choro contido e mágoas não ditas —”Dia dos Namorados, chorando no hotel/ eu sei que você não queria me magoar, então guardei para mim”.

Eilish não é um cometa solitário. Basta olhar os nomes indicados à categoria de artista revelação deste ano —Olivia Dean, The Marías, Lola Young, Sombr, Addison Rae, entre outros. Todos orbitam um mesmo campo emocional, legitimado por Eilish há uma década.

Lola Young explodiu com “Messy”, uma música sobre nunca se encaixar nas expectativas impostas a ela. Dean, em “Let Alone the One You Love”, diz “e se você me conhecesse de verdade/ não tentaria me diminuir”. Sombr canta sobre olhar nos olhos de um parceiro e perceber que ele quer ir embora, em “Undressed”.

O pop, ao que tudo indica, anda de cara fechada. Um levantamento recente da revista The Economist, com dados da plataforma Musixmatch, analisou letras das músicas que entraram no top cem da Billboard nos últimos 25 anos. Usando inteligência artificial, o estudo classificou os “humores” das canções —amor, alegria, angústia, desespero, raiva, coração partido e por aí vai.

As emoções positivas não desapareceram. “Amor” segue sendo uma das mais recorrentes da música popular. O que mudou foi o equilíbrio. Segundo o estudo, a proporção de hits com letras associadas ao termo “angst” —um misto de ansiedade e inquietação existencial— cresceu 13% nas últimas duas décadas. Hoje, a angústia disputa espaço com o coração partido, que vem em ascensão nos últimos cinco anos.

Depois de 2020, um novo sentimento ganhou força, o desespero. Atualmente, cerca de um quarto das músicas na lista da Billboard contém referências explícitas a esse sofrimento emocional. O hit da vez não é mais “Happy”, de Pharrell Williams, mas “Die with a Smile”, de Lady Gaga e Bruno Mars —uma balada melancólica que liderou paradas em mais de 30 países e quebrou recordes.

Classificar o pop, no entanto, é sempre escorregadio. Como o nome indica, é música popular —os Beatles, hoje tratados como rock clássico, já foram pop. Por isso, estudos desse tipo recorrem à Billboard como termômetro do que as pessoas efetivamente escutam.

No Brasil, o gênero que domina as paradas já carrega sua emoção principal no nome, a sofrência —um subgênero do sertanejo e do arrocha. Marília Mendonça, a rainha da sofrência, foi a primeira brasileira a ultrapassar o marco de 10 bilhões de “streams” no Spotify.

No ano passado, porém, o pagode rompeu uma sequência de sete anos de liderança do sertanejo no ranking das músicas mais tocadas no streaming no país, com “P de Pecado”, do grupo Menos É Mais com Simone Mendes. Os dados são da associação de produtores Pró-Música.

Apesar de o sertanejo voltar na segunda posição com “Tubarões”, da dupla Diego e Victor Hugo, o pódio fecha com outra música do Menos É Mais, “Coração Partido (Corazón Partío)”, uma versão brasileira do pop de 1997 do espanhol Alejandro Sanz.

Esse movimento não surgiu do nada. Um estudo acadêmico ainda mais amplo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Viena, analisou mais de 20 mil músicas que apareceram na Billboard entre 1973 e 2023. Ao longo de cinco décadas, o pop ficou mais negativo, mais estressado e menos complexo.

Para chegar a isso, os pesquisadores usaram dicionários contendo o que chamaram de “palavras de estresse”. A partir delas, foram feitas análises de sentimentos, com um algoritmo responsável por buscar letras fáceis de “compactar”, discutindo paralelamente a simplicidade das músicas atuais.

Um exemplo é “Work”, de Rihanna, que repete a palavra do título diversas vezes —18 a cada refrão—, o que reduz o tamanho e as informações da canção.

Sérgio Molina, compositor, produtor e pesquisador da área, faz um alerta. “A pesquisa foi atrás de algumas palavras e foi feita de uma maneira simples demais. Existe mais complexidade nessa questão, é algo que tem camadas.” Para ele, artistas consagrados no pop, como Beatles, Stevie Wonder e Michael Jackson, tinham também letras simples e óbvias. “Mas não existia só essa forma.”

Molina lembra que esses artistas são donos de sucessos que quebravam expectativas. “Eles levavam a canção para outro lugar, mudavam o rumo da narrativa e problematizavam o que estava sendo discutido”, afirma. “‘Hey Jude’, por exemplo, é muito simples. Isso não impede que exista complexidade e riqueza em outros parâmetros.” A música pode ser formalmente simples e ainda assim sofisticada em arranjo, interpretação ou impacto emocional.

Há, claro, uma dimensão mercadológica —o que vende se repete. Algoritmos empurram conteúdos parecidos para quem já demonstrou gostar de algo. Experimentar é arriscado e pode custar caro. “Esses modelos acabam sendo impostos ou até buscados pelos artistas atrás de sucesso”, diz Molina.

Nos últimos anos, essa estética melancólica se ligou fortemente ao universo adolescente e às redes sociais. “O pop é um espelho da juventude de uma sociedade”, afirma Molina. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um em cada sete jovens entre dez e 19 anos sofre de algum transtorno de saúde mental, como depressão e ansiedade. Já o suicídio está entre as principais causas de morte de pessoas entre 15 e 29 anos.

Ainda assim, Molina pondera que tristeza na letra não determina, sozinha, o efeito da música. “A pesquisa procura palavras que aparecem com mais frequência e tenta associar essas palavras a uma curva. Mas a música pode falar de angústia e, ainda assim, ser dançante.”

Bom exemplo é Bad Bunny, indicado em quatro categorias deste Grammy. “Debí Tirar Más Fotos”, o álbum do porto-riquenho, teve como single “DTMF”, hit número um da Billboard Global 200. A letra aborda nostalgia, arrependimento e melancolia, mas com o ritmo do reggaeton. “Dá para ser feliz no triste, dançar na angústia alheia”, diz Molina. “É o que a música pop sempre fez.”



Fonte ==> Uol

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