O surrealismo, não é de hoje, anda em alta, talvez uma reação do gosto dos colecionadores e dos críticos diante da atrocidade de nosso mundo mais real do que real, em que carnificinas desfilam incólumes, bombardeios são rotinas, chacinas colorem as páginas de jornal como mais um dia qualquer.
Nesse ponto, a placidez tétrica de uma das obras mais caras da SP-Arte, feira que domina a cena artística de São Paulo nesta semana, chama muito a atenção. Primeiro vemos um pé, depois a mão, os dois agigantados ao lado de um cacto que brota no deserto. No horizonte, uma mulher nua jaz inerte, seus longos cabelos alinhados com o traço que divide a terra do céu.
“Terra”, de Tarsila do Amaral, obra que esteve na aclamada retrospectiva da modernista no Musée du Luxembourg, em Paris, há dois anos, é uma raridade da artista, um exercício tão onírico quanto masturbatório que remete a Salvador Dalí. Não é de sua fase mais áurea, mas, diante da escalada de seus preços e polêmicas sem fim que cercam seus herdeiros e a autenticidade de suas obras, parece até pouca coisa a etiqueta de R$ 19 milhões colada no quadro à venda pela galeria carioca Flexa agora na feira paulistana.
Estaria morta? Ou em descanso sob o sereno do deserto? Vida e morte andam mais juntas do que nunca.
VIA CRÚCIS Outra peça polêmica desta SP-Arte é uma tela de Philip Guston do final da década de 1970, à venda por R$ 18,5 milhões pela galeria Almeida & Dale, cabeça do grupo que também controla a Flexa. O artista canadense radicado nos Estados Unidos, um dos grandes nomes do século passado, teve sua última retrospectiva censurada por museus americanos e britânicos, chegando com três anos de atraso à Tate Modern, em Londres.
O grande problema eram suas representações cartunescas de homens encapuzados, com roupas que remetem às vestes do Ku Klux Klan, fumando charutos a bordo de carros conversíveis —no sentido de que a vida é doce para quem está no comando da violência. Guston era judeu e trocou de nome para não dar bandeira no pós-Guerra. Foi uma figura de resistência ímpar e irreverência ácida que reverbera até os dias de hoje, em que árabes e judeus, com respaldo robusto americano, voltam a se matar com todas as forças. Qualquer obra sua, neste momento, já seria histórica.
ACQUA ALTA Um mês antes da Bienal de Veneza, na Itália, onde Adriana Varejão representa o Brasil ao lado de Rosana Paulino, peças das duas artistas também estarão na SP-Arte. Varejão tem obras na Flexa que vão de R$ 2,1 milhões a R$ 7 milhões. Paulino, sem valores divulgados, estará na Mendes Wood DM.
NOVE FUROS Outra das obras mais caras da feira é uma tela de Lucio Fontana, à venda por R$ 15 milhões pela Gomide&Co. De acordo com o galerista Thiago Gomide, é uma das melhores peças do argentino radicado na Itália em coleções brasileiras —isso é medido no mercado pelo número de navalhadas na tela.
VERDADE E FICÇÃO Dois trabalhos de Leonilson também chamam a atenção na Almeida & Dale, que representa o artista. “Mr. One Night Stand”, bordado clássico que retrata sua transa no banheiro de um avião com um israelense, está à venda por R$ 2,2 milhões, e seu “Truth Fiction”, central em sua trajetória, por R$ 1 milhão.
VEIAS ABERTAS O venezuelano Jesús Rafael Soto, com mostra no Masp neste ano, tem obras de R$ 9,5 milhões, na Almeida & Dale, e R$ 1,5 milhão, na Raquel Arnaud.
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Fonte ==> Uol



