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Fentanil circula em maconha sintética em São Paulo – 27/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

Fentanil circula em maconha sintética em São Paulo - 27/10/2026 - Equilíbrio e Saúde

Um estudo realizado pela USP (Universidade de São Paulo) encontrou fentanila —substância conhecida nas ruas como fentanil– na saliva de usuários de maconha sintética. O opioide, responsável por uma epidemia de dependentes nos Estados Unidos, é mais potente que a morfina e pode causar uma overdose instantânea.

A pesquisa revela a circulação de fentanil em drogas que, em tese, não o possuem na composição. O resultado é preocupante devido ao alto risco à saúde de quem as consome. E um alerta para as autoridades de saúde.

A análise foi feita com 65 usuários de canabinoides sintéticos, conhecidos como drogas K, a partir da coleta da saliva. Nenhum dos indivíduos que declararam ter usado a droga relatou o uso de opioides. Ou seja, a intoxicação ocorreu de maneira involuntária e desconhecida. Na hipótese de um deles consumir uma quantidade alta, o risco de morte é por depressão respiratória.

As amostras para a análise foram coletadas em três serviços de saúde da capital paulista, um na zona sul e dois na zona leste. Testaram positivo 21 dos 65 (32%).

O estudo revela um perfil majoritariamente marcado pela vulnerabilidade social e pelo tempo prolongado de uso da maconha sintética. A maioria dos que testaram positivo eram homens, em situação de rua e com baixa escolaridade. A mediana da idade é de 23 anos, com significativa inserção de jovens entre consumidores da droga.

Há uma característica marcada como curiosa pelos pesquisadores. Todos os usuários com resultado positivo para fentanil relataram taxas nulas de maconha, cocaína ou álcool no período de quatro dias da avaliação. Esse achado sugere que a exposição ao fentanil pode estar concentrada em redes e cadeias de suprimento específicas de canabinoides sintéticos.

A pesquisadora Ligia Goes Endo, autora da análise, afirma que a circulação de fentanil em drogas tidas como “de rua” eleva o risco de uma epidemia aos moldes dos Estados Unidos, onde o opioide é usado geralmente em versões injetáveis.

“Fentanila é um opioide muito potente, com alta restrição, usado no contexto hospitalar. No centro cirúrgico ela causa uma depressão respiratória programada, com dosagem controlada, para um fim específico. Imagine um usuário usando isso de forma descontrolada na rua, sem noção de dosagem. Ele corre risco elevado de morte”, afirma.

Essa é a primeira vez que o opioide é encontrado com base em um rastreamento com esse foco. Em outras análises, testagens em drogas apreendidas mostraram a presença da fentanila em maconha sintética, mas não havia evidências sobre o uso nas ruas.

O risco é exacerbado pela acessibilidade à droga, que por vezes chega a ser mais barata que o crack. Os pesquisadores colheram de usuários relatos de que, uma vez iniciado o uso da K9, essa droga se tornou a principal. Alguns deles migraram para a maconha sintética pela abstinência causada pelo opioide. Outros relataram usar crack apenas quando não encontram a K9.

“Essas drogas K tem o efeito similar ao da maconha, mas importante destacar que elas não são canabinoides. A comparação se dá exclusivamente porque atingem o mesmo receptor, mas o efeito é extremamente potencializado. É uma redução brusca da atividade cerebral”, explica.

Usuários relataram que pagam entre R$ 2 e R$ 5 na droga, a depender da porção. Alguns deles disseram pagar R$ 1 em quantidade suficiente para fazer dois cigarros. Trata-se de combinação atraente para o tráfico, que fornece uma droga mais viciante por preço menor.

O consumo recreativo de fentanil oferece alto risco de intoxicação e morte por overdose, mesmo em pequenas quantidades. A substância pode deprimir o sistema nervoso central e comprometer a respiração, levando à perda de consciência, seguida por insuficiência respiratória. O risco é ainda maior quando a droga é misturada a outras substâncias, como álcool, benzodiazepínicos ou outros opioides, ou quando é consumida sem que a pessoa saiba sua composição e concentração. O uso repetido também pode levar à dependência, e a interrupção após o desenvolvimento de dependência física pode provocar sintomas de abstinência.

A pesquisa da USP, segundo Ligia, visa mapear a circulação do opioide por São Paulo, e deve testar ainda usuários em outras regiões da cidade –inclusive no centro, onde se concentram grandes aglomerados de dependentes químicos.

Em 2023, os Estados Unidos viveram uma onda de overdose por fentanil que chegou a matar 300 pessoas por dia. Os números caíram desde então, sem muitas evidências do que teria influenciado a queda.



Fonte ==> Uol

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