Search
Close this search box.

‘Deus da Carnificina’; veja entrevista com Karine Teles – 26/05/2026 – Mise-en-scène

'Deus da Carnificina'; veja entrevista com Karine Teles - 26/05/2026 - Mise-en-scène

Quatro adultos sentam-se em uma sala e começam a resolver diplomaticamente uma briga de escola entre seus filhos. A abertura de “O Deus da Carnificina”, de Yasmina Reza, parece trivial, mas a produção, dirigida por Rodrigo Portella no Teatro TotalEnergies, subverte sua serenidade inicial ao substituir o realismo de uma sala de estar burguesa por um laboratório de involução social.

O que vemos no palco é a destruição mecânica das regras que criamos para fingir que não somos animais. Esse desmantelamento começa com a rejeição da ilusão. Ao exibir a caixa cênica, expondo as paredes nuas do teatro e a construção técnica das coxias, a direção retira qualquer sensação de segurança ou intimidade.

Os personagens pertencem a algo além de um apartamento; eles vivem em um tablado, praticando uma polidez que sabem ser uma atuação. O chão, coberto com um tapete de grama sintética, é uma fonte de ironia no espaço. A grama artificial evoca a natureza domesticada pelo consumo, mas também lembra uma arena, um pátio de escola, um zoológico onde os sapatos serão removidos e os territórios disputados com unhas e dentes.

A ordem inicial é literalmente deteriorada pelo tempo. O cenário que se abre limpo e meticulosamente organizado é vandalizado por aqueles que usam o espaço por mais de noventa minutos. Em vez da elegante sobremesa francesa que se esperava aqui, o cenário coloca um carrinho de sorvete. A troca é cirúrgica. O picolé infantiliza esses adultos e os nivela à imaturidade das crianças que procuram proteger, e impõe uma propriedade física imutável: o sorvete derrete, escorre e mancha, um testemunho físico do controle emocional que eles tentam desesperadamente manter.

O brilhante quarteto de atores — Karine Teles modulando o colapso com precisão, Thelmo Fernandes quebrando a tensão com cinismo, Ângelo Paes Leme e Anna Sophia Folch mantendo o modo de agressão passiva — opera em atrito constante, fragmentando alianças que mudam de lado a cada gole de uísque.

O último curto-circuito acontece na colisão temporal dos figurinos. O elenco está vestido com roupas impregnadas das restrições do século 19 e apertadas em fraques e espartilhos que sufocam o corpo. Eles também consertam fissuras corporativas globais com seus smartphones. E o anacronismo é o argumento da produção em seu ponto mais forte. Portella argumenta que a tecnologia certamente avança em uma velocidade vertiginosa, mas o código de convivência humana permanece preso em um estado primitivo. O espetáculo nos traz um jogo barulhento e preciso sobre a fragilidade de nossos discursos.

Três perguntas para…

… Karine Teles

Sua personagem é um motor invisível das viradas de tom da peça, transitando entre o controle rígido e o colapso. Como foi o trabalho de calibração milimétrica para que essa transição pareça orgânica e não um salto abrupto para a caricatura?

Tivemos um processo de ensaios muito interessante. Primeiro, passamos algumas semanas debruçados exclusivamente sobre o texto, procurando os movimentos e entendendo as discussões que cada interação entre os personagens possibilitava. Conversamos muito sobre o encadeamento das emoções.

Depois, partimos para a cena e para a delícia produtiva que é errar, errar e errar — o que só é possível em uma sala de ensaio. Sempre tendo em mente o que a gente queria discutir a partir do texto. Agora, em cartaz, seguimos descobrindo coisas a cada dia de apresentação.

A peça exige uma escuta cênica afiadíssima, onde o silêncio e as pausas são tão violentos quanto os diálogos rápidos. Como o quarteto construiu esse tempo de comédia ácida nos ensaios para que o espetáculo funcione com a precisão de um relógio?

O grande desafio e também a parte mais instigante de estar em cena neste espetáculo é justamente o exercício da escuta. Os personagens não se ouvem e a comunicação entre eles vai ficando cada vez mais violenta, exatamente porque todos estão mais preocupados em impor suas ideias.

Isso, contraditória e maravilhosamente, exige de nós quatro que estejamos extremamente presentes e com os ouvidos atentos e afiados para que a partitura dessa enorme discussão possa ser executada.

“O Deus da Carnificina” é um texto de vinte anos atrás que continua cirúrgico ao rir da hipocrisia burguesa. O que você acha que a sua personagem mais revela sobre a fragilidade dos nossos discursos politicamente corretos em 2026?

Acredito que o grande problema da minha personagem é justamente não saber ouvir nada que não seja dito da forma como ela constrói seu próprio pensamento. A meu ver, a Verônica tem alguma coerência e excelentes intenções, mas se perde justamente na arrogância de quem se acha dona da verdade.

No afã de proteger seu filho, ela não percebe que o diálogo (algo que tanto preza) pressupõe escuta; e escutar não é apenas esperar a sua vez de falar, mas sim assimilar o que foi dito, mesmo que venha de um conjunto de noções diferentes das suas.

Esse, a meu ver, é o nosso maior desafio como humanidade: entender que, quando pensamos em melhorar o mundo de maneira ampla e não violenta, as diferenças são muito mais férteis do que perigosas.

Teatro TotalEnergies – rua do Russel, 804 – Glória, Rio de Janeiro. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 17h. Até 7/6. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 75 (meia-entrada) em ingresso.com


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte ==> Uol

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 * 3 = ?
Reload

This CAPTCHA helps ensure that you are human. Please enter the requested characters.

Leia Também

Coleção Max Mara Resort 2027

Coleção Max Mara Resort 2027

Um ursinho de pelúcia gigante vigiava as comemorações do 75º aniversário de Max Mara no Long Museum de Xangai. A mascote gigantesca foi