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‘Treta’ é cínica, intensa e provocadora em nova temporada – 23/04/2026 – Luciana Coelho

'Treta' é cínica, intensa e provocadora em nova temporada - 23/04/2026 - Luciana Coelho

Pouca coisa é mais desprezada na vida real e mais cultuada na ficção do que o cinismo —o que não deixa de ser revelador. Com o egoísmo, a ambição e a mesquinharia humana, é o cinismo que dá o norte da segunda temporada de “Treta”, série de Lee Sung Jin que estreou na Netflix no último dia 16.

Recorrendo a uma mistura de crítica social com humor provocativo, os roteiristas e diretores coreanos têm se mostrado especialmente hábeis em lidar com esse tipo de material, vide “Parasita” e “Round 6”.

Com Lee não é diferente. Ele havia conjurado esses mesmos elementos para a primeira temporada da série, em 2023, que varreu oito prêmios Emmy, incluindo roteiro, direção e melhor minissérie ou antologia. Para a segunda, dobra a aposta com uma história em que o jogo de ascensão social é disputado em casais, tornando seu estudo sobre as motivações humanas ainda mais interessante.

A história, como da primeira vez, começa com um incidente banal entre estranhos. Funcionários de um clube de campo coalhado de celebridades flagram o gerente em uma briga violenta com sua mulher e, surpresos, decidem filmar o ocorrido. O que se desenrola daí em diante, entre chantagens e arrivismo, é uma espiral descendente pela alma humana, na qual o absurdo das situações harmoniza com a tremenda autenticidade das reações dos personagens, incomodamente familiares.

Lee escreve bem, usando mesmo as características positivas dos personagens para levá-los a um lugar pior. Brinca com a esperança da plateia, se é que há alguma, mas não disfarça sua intenção de provocar e, com isso, divertir. Erra a mão às vezes —é penoso passar por algumas cenas dada a intensidade do que elas expõem—, mas logo compensa com uma construção minuciosa em que as nuances são tantas que não sabemos para quem torcer.

O elenco é grande parte desse trunfo. Oscar Isaac (felizmente menos histriônico do que em “Frankenstein”) e Carey Mulligan (“Saltburn”), como o gerente do clube e sua mulher, formam um casal recém-entrado na meia-idade que já passou por todas as fases da relação, e agora parece não saber o que fazer dela.

Cailee Spaeny (“Guerra Civil”) e Charles Melton (“Riverdale”), os jovens funcionários, são namorados que começam a construir a vida, espelham-se nos exemplos à sua volta e não têm nada além de instinto de sobrevivência para segui-los. E a veterana Youn Yuh-jung, de “Minari” e “Pachinko”, volta a brilhar no papel de uma magnata corrupta com aparência de senhorinha adorável que usa pessoas como se fossem ferramentas descartáveis, inclusive o marido (vivido por Song Kang-ho, de “Parasita”).

Com essa configuração, a série consegue tanto explorar a trama mais ampla, na qual os personagens vão se envolvendo em sucessivas tramoias a fim de melhorar de vida, como o cenário mais intimista das relações conjugais —e Lee não tem uma visão muito otimista de como elas progridem.

Mesmo com esse pesar, as interpretações de Isaac e Mulligan são de uma sensibilidade cortante, deixando entrever todas as camadas de sentimento que se se misturam em um relacionamento longo e que nenhum momento (nem mesmo os piores) é tempo perdido. No cinismo, afinal, também há um alento.


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Fonte ==> Uol

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