O tapete vermelho será estendido para um seleto grupo de estrelas hollywoodianas nesta 79ª edição do Festival de Cannes, que começa nesta terça-feira (12). É que, pela primeira vez em cinco anos, nenhum blockbuster americano vai estrear na mais importante mostra de cinema do mundo.
O Brasil também está de fora, depois de ter todos os holofotes voltados para si na Croisette no ano passado, quando “O Agente Secreto” foi exibido com direito a um desfile de frevo pernambucano. Na ocasião, Kleber Mendonça Filho foi coroado melhor diretor e Wagner Moura, melhor ator.
A ausência deste ano é um balde de água fria depois de o país consolidar, nos últimos anos, sua presença no mais importante festival de cinema do mundo, dentro e fora da competição principal, com produções como “Motel Destino”, de Karim Ainouz, “Baby”, de Marcelo Caetano, ou “Retratos Fantasmas”, do próprio Mendonça Filho.
Nesta lacuna há ecos de uma disputa que acontece em casa, entre o poder público e membros do audiovisual, que fazem pressão para que se regule as plataformas de streaming no Brasil, o que reverteria parte dos lucros de empresas de sob demanda para a produção e distribuição de títulos nacionais.
Em janeiro, produtores alertaram que o recente ciclo virtuoso do cinema brasileiro, com títulos prestigiados internacionalmente como “Manas”, “O Agente Secreto”, “O Último Azul” e “Ainda Estou Aqui”, poderia sofrer uma interrupção devido à demora, por parte do governo federal, de retomar as políticas públicas que já haviam sido interrompidas pela gestão de Jair Bolsonaro.
Apesar de esta edição do festival não ter filmes essencialmente brasileiros, o país aparece como coadjuvante em alguns selecionados.
É o caso de “Elefantes da Névoa”, do nepalês Bikram Shah, exibido na mostra paralela Um Certo Olhar. Nepal, Alemanha, França e Noruega também bancam o longa. Já Selton Mello, estrela de “Ainda Estou Aqui” ao lado de Fernanda Torres, desembarca na Riviera Francesa para apresentar o filme chileno “La Perra”, no qual atua.
Rodrigo Teixeira, responsável por “Ainda Estou Aqui”, produz o americano “Paper Tiger”, de James Gray, que disputa a Palma de Ouro. Estrelado por Adam Driver e Scarlett Johansson, o longa será o único a pôr algumas das estrelas mais brilhantes de Hollywood para desfilar na Croisette.
Isso porque esse papel ficava a cargo, muitas vezes, dos blockbusters exibidos em sessões especiais, fora de competição —foi o caso de títulos como “Top Gun: Maverick”, “Indiana Jones e a Relíquia do Destino” ou “Missão: Impossível – O Acerto Final”.
Neste ano, as grandes produções americanas cotadas para desembarcar em Cannes acabaram por não cruzar o Atlântico. Entre elas estavam “Dia D”, de Steven Spielberg, velho conhecido do festival —com passagens memoráveis em 1982, quando “E.T.: O Extraterrestre” teve sua primeira exibição mundial na Croisette, e em 2013, quando o diretor foi presidente do júri—, o quinto “Toy Story”, animação da Pixar, ou “A Odisseia”, de Christopher Nolan.
Os grandes estúdios, porém, têm preferido pular festivais de cinema como Cannes, Berlim e Veneza para seguir com sua própria agenda de divulgação. Esse movimento já começou no ano passado, quando filmes americanos de grandes pretensões saltaram todos os festivais —e, no caso de “Pecadores” e “Uma Batalha Após a Outra”, garantiram suas estatuetas do Oscar de qualquer forma.
É possível que a glamorosa passagem por esses eventos, que inclui no pacote desfiles pelo tapete vermelho televisionados e entrevistas para jornalistas, ações antes consideradas importantes manobras de marketing, não estejam valendo mais a pena num mundo dominado pelas redes sociais.
Bancar a estreia de um blockbuster em Cannes custa cerca de US$ 1 milhão, em torno de R$ 4,92 milhões. Em tempos de bilheterias tímidas e poucos projetos originais, estúdios podem querer desviar da crítica especializada e garantir mais controle sobre as primeiras reações a um filme.
Mas para cineastas financiados por grandes estúdios e que têm uma veia artística pulsante, como Yorgos Lanthimos, Guillermo Del Toro e Wes Anderson, os festivais ainda são parada obrigatória.
Em Cannes, é o caso de Pedro Almodóvar, que compete pela Palma de Ouro com “Natal Amargo”, distribuído pela Warner Bros. Mais de 30 anos após “Pulp Fiction: Tempo de Violência” vencer a Palma de Ouro, John Travolta retorna a Cannes para fazer sua estreia como diretor, fora de competição, com “Aventura nas Alturas”, do Apple TV.
Os Estados Unidos ainda estão representados por uma das homenageadas com a Palma de Ouro honorária, Barbra Streisand —o neozelandês Peter Jackson também vai receber a láurea—, e pelo cinema independente.
Além de “Paper Tiger”, o diretor Ira Sachs, conhecido por narrativas queer, apresenta “The Man I Love”. Pode ser um bom presságio, visto que, em 2024, “Anora”, de Sean Baker, levou a Palma de Ouro para depois triunfar no Oscar. Já na mostra paralela Um Certo Olhar, Jane Schoenbrun exibe o terror queer “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, estrelado por Hannah Einbinder, da série “Hacks”, e Gillian Anderson.
Steven Soderbergh, de “Onze Homens e Um Segredo”, mostrará fora de competição um documentário sobre John Lennon, e Ron Howard, diretor de “O Grinch” e “Uma Mente Brilhante”, exibe “Avedon”, sobre o fotógrafo americano Richard Avedon.
Na competição principal, a predominância é de produções europeias, com destaque para “Fatherland”, novo filme de Pawel Pawlikowski com Sandra Huller. Sem latino-americanos, sobrou espaço para produções asiáticas, assinadas por alguns dos nomes mais prestigiados desta safra.
É o caso do japonês Ryusuke Hamaguchi, vencedor do Oscar de filme internacional em 2022 por “Drive My Car”, que agora apresenta “All of a Sudden”, e Hirokazu Kore-eda, com “Sheep in the Box”.
O iraniano Asghar Farhadi compete com “Parallel Tales”, depois de seu compatriota Jafar Panahi levar a Palma de Ouro no ano passado e voltar os olhos do mundo para a repressão de artistas pelo regime iraniano.
O vencedor será coroado pelo júri liderado por Park Chan-wook, sul-coreano de “Oldboy” e “A Única Saída”. Compõem a banca ainda a atriz americana Demi Moore, a diretora chinesa Chloé Zhao, o ator sueco Stellan Skarsgard, a atriz etíope-irlandesa Ruth Negga, a diretora belga Laura Wandel, o cineasta chileno Diego Céspedes, o ator costa-marfinense Isaach De Bankolé e o roteirista escocês Paul Laverty.
Diante das polêmicas em torno do uso de inteligência artificial nas artes, Thierry Frémaux, diretor do Festival de Cannes, posicionou o cinema como um sopro de vida humana na era das máquinas. “Um filme não é uma mistura de dados, é visão. A IA nunca saberá como sentir”, disse, ao anunciar a programação deste ano.
Em tempos de instabilidade geopolítica e para a indústria cinematográfica, o evento se firma, declarou ele, como um manifesto a favor da experiência coletiva.
Fonte ==> Uol



