Diemant detalha como inovação, ecodesign e logística reversa ajudam a reduzir impactos ambientais
Por Estela Mendonça
A circularidade vem se tornando uma diretriz concreta na forma como empresas de beleza desenvolvem, comercializam e recuperam suas embalagens. No Grupo Boticário, essa estratégia passa por reduzir o uso de matéria-prima, ampliar o portfólio de refis, incorporar material reciclado e fortalecer a logística reversa para que as embalagens pós-consumo voltem à cadeia produtiva.
Nesta entrevista, Gustavo Dieamant, diretor executivo de P&D do Grupo Boticário, detalha como inovação, ecodesign e parcerias com cooperativas e recicladores ajudam a transformar compromissos ambientais em soluções escaláveis. “Nossa estratégia de circularidade considera todo o ciclo das embalagens: evitar a geração de resíduos, recolher, reciclar e reinserir materiais na cadeia”, afirma.
Como o Grupo Boticário enxerga hoje o papel dos refis dentro da estratégia de sustentabilidade e inovação da companhia?
Os refis são uma das principais iniciativas da nossa estratégia de sustentabilidade porque traduzem, na prática, o compromisso do Grupo Boticário com os princípios dos 3Rs: Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Acreditamos que inovar também significa encontrar formas de reduzir o impacto ambiental sem precisar abrir mão da qualidade e da experiência do consumidor.
Hoje, nossas embalagens refil utilizam cerca de 78% menos plástico do que as versões convencionais nas categorias em que esse material é empregado, como produtos para banho, cuidados corporais, skincare, cabelos e maquiagem. Em perfumaria, utilizamos outros tipos de materiais nos nossos refis e chegam a ser até 90% mais leves do que as embalagens regulares dos produtos. Essas soluções estão presentes em marcas como O Boticário, Quem Disse, Berenice?, Vult, Eudora, Linha de Cuidados Pampers e O.U.i Paris. Além disso, seu desenvolvimento considera de forma integrada a demanda dos consumidores, a viabilidade técnica, o impacto ambiental e a logística, para ampliar sua escalabilidade e relevância.
Estamos presentes em mais de 40 países e em todo o território brasileiro, consolidando-nos como um dos maiores ecossistemas de beleza do mundo e referência em sustentabilidade no setor. Reconhecemos nossa responsabilidade e influência na sociedade e na economia e, por isso, assumimos compromissos públicos em práticas ambientais, sociais e de governança. Seguimos firmes no propósito de transformar a beleza em um movimento cada vez mais sustentável, contribuindo para um futuro melhor para o planeta e para as próximas gerações.
Há comparações entre períodos em volume de vendas, número de SKUs, categorias atendidas ou resíduos evitados com o uso de refis?
Embora ainda não divulguemos uma série histórica consolidada sobre volume de vendas ou número de SKUs de refis, os resultados ambientais demonstram o avanço dessa estratégia. Em 2024, por exemplo, somente a ampliação da comercialização de refis de fragrâncias de Boticário evitou a geração de aproximadamente 92 toneladas de resíduos. Esses refis utilizam cerca de 89% menos embalagens em comparação com as versões convencionais.
Acompanhamos resultados específicos por solução, como o refil monomaterial de Botik, que utiliza 91% menos embalagem que o produto convencional. Em maquiagem, as versões refiláveis de base cushion e pó compacto já proporcionaram uma redução anual superior a 25 toneladas de plástico. Já o refil da base líquida Glam, de Eudora, utiliza 83% menos plástico que sua embalagem original.
Ainda, recentemente, Boticário realizou a campanha de Refil Compre e Leve onde na compra de uma loção hidratante de 400ml das linhas Nativa SPA ou Cuide-se Bem, o consumidor ganhava um refil grátis da mesma linha.

Como funciona a rastreabilidade dos fluxos de materiais recicláveis dentro das iniciativas do Grupo?
A rastreabilidade começa nos mais de 4,5 mil pontos de coleta dos programas de logística reversa, que recebem embalagens de qualquer marca de higiene pessoal, cosméticos e perfumaria. Os resíduos são encaminhados para cooperativas homologadas, onde passam por triagem e seguem para reciclagem ou transformação em novos materiais.
Em 2025, as 17 cooperativas parceiras foram monitoradas pela Yattó, segundo critérios técnicos, legais e de compliance. Já o projeto Estação Preço de Fábrica, realizado com a GreenMining, utiliza tecnologia de rastreamento para acompanhar os recicláveis e valorizar os materiais destinados pelos catadores.
Um exemplo prático foi o Boti Recicla Store, iniciativa realizada no ano passado, onde resíduos coletados foram enviados a parceiros, como a empresa Mão Colorida, para serem convertidos em chapas e perfis sustentáveis utilizados no mobiliário das lojas. Atualmente, 142 lojas de Boticário possuem mobiliário ou estruturas produzidas com essas soluções, que já incorporaram mais de 147 toneladas de material reciclado.
Como o time de P&D equilibra redução de plástico, segurança do produto, experiência do consumidor e viabilidade industrial?
Em P&D, atuamos de forma integrada durante todas as etapas de desenvolvimento de produtos. A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) mensura e compara o impacto ambiental de diferentes cenários, permitindo-nos avaliar parâmetros como reciclabilidade, conteúdo reciclado e eficiência logística. Dessa forma, buscamos a redução do uso de plástico assegurando que o desempenho do produto, a proteção da embalagem e a experiência de uso do consumidor sejam totalmente preservados.
A segurança é inegociável: todos os produtos e embalagens passam por avaliação técnica e possuem conformidade regulatória. Também avaliamos a capacidade de produção em escala, a disponibilidade dos materiais, a adaptação dos processos industriais e a parceria com fornecedores. O objetivo é desenvolver soluções que sejam ambientalmente melhores, seguras, desejáveis para o consumidor e viáveis para fabricação e distribuição.
Quais são as metas do Grupo Boticário para ampliar a circularidade das embalagens nos próximos anos?
Nossa estratégia de circularidade considera todo o ciclo das embalagens: evitar a geração de resíduos, recolher, reciclar e reinserir materiais na cadeia. Até 2030, queremos destinar à reciclagem o equivalente a pelo menos 45% dos resíduos de embalagens gerados no ano e ampliar para 30% a utilização de material reciclado nas embalagens.
Também temos a meta de desenvolver novos produtos enxaguáveis com formulações biodegradáveis, além de reduzir em 15% o volume de resíduos gerado por unidade vendida, em comparação com 2022. Para avançar nesses compromissos, seguimos investindo em refis, ecodesign, logística reversa e parcerias com fornecedores, cooperativas e recicladores.
Que papel o setor de beleza pode desempenhar na construção de uma economia mais circular?

O setor de beleza desempenha um papel relevante na transformação dos hábitos de consumo, tanto ao estimular escolhas mais conscientes quanto ao desenvolver soluções que reduzam a geração de resíduos em toda a cadeia. Os refis são um exemplo concreto desse movimento, ao lado de iniciativas como a redução do uso de materiais nas embalagens e os programas de logística reversa.
Um exemplo forte é o Boti Recicla, o maior programa de logística reversa do Brasil no segmento de beleza em número de pontos de coleta. A iniciativa conta com mais de 4 mil pontos de coleta e 14 cooperativas parceiras, contribuindo para a destinação adequada das embalagens pós-consumo e para o fortalecimento da cadeia da reciclagem. Quem Disse Berenice? também participa com o programa QDB Recicla, incentivando os consumidores a retornarem embalagens vazias para as lojas em troca de benefícios, como descontos.
Ao combinar inovação, sustentabilidade e acessibilidade, ampliamos as possibilidades para que os consumidores façam escolhas de menor impacto ambiental sem abrir mão da qualidade e da experiência com os produtos. Acreditamos que avançar em direção a uma economia mais circular exige um esforço compartilhado entre empresas, consumidores e todos os elos da cadeia produtiva.
Fonte ==> Cosmetic Innovation



