A nova exposição do MIS Experience, em São Paulo, é feita para quem é fanático por futebol, mas “principalmente para quem não gosta”. É o que diz Paulo Bonfá, curador de “Brasil em Todas”, mostra aberta nesta quarta (8) com vídeos, áudios e artefatos da seleção na véspera da abertura da Copa do Mundo.
O nome vem do fato de o Brasil ser o único país a participar de todas as Copas —desde quando as equipes faziam longas viagens de barco ao mundial, em que os jogadores treinavam em alto-mar e acabavam ganhando uns quilinhos. Essa é uma das curiosidades nas páginas de jornais antigos ampliadas no espaço.
“A maioria das pessoas sempre acompanhou a Copa através das histórias contadas em meios de comunicação”, diz Bonfá. Esse foi o caminho escolhido na exposição, que constrói uma narrativa a partir de registros da imprensa —incluindo material da Folha.
Há nos recortes de jornais muita história para o que Bonfá chama de “elementos para conversa de mesa de bar”. Na Copa de 1930, ainda não havia a figura do árbitro. “O treinador da Bolívia, por exemplo, foi juiz em outro jogo, bandeirinha em outro e na final era o assistente do jogo entre Uruguai e Argentina.”
No mundial seguinte, o Palestra Itália, antigo Palmeiras, não quis ceder jogadores à seleção porque achava o campeonato local mais importante. O clube então contratou seguranças armados e escondeu os jogadores em uma fazenda em Matão, no interior de São Paulo, com medo de ter os atletas aliciados.
A Índia, que nunca disputou uma Copa, viria ao Brasil em 1950, mas a FIFA proibiu que os jogadores, sem chuteiras, atuassem descalços. “É para que as pessoas tenham essa noção de que, quando começou, não tinha esse glamour, dinheiro, estrutura e repercussão.”
É possível ver como mudou a maneira que se consome —e se fala— sobre futebol. “Antes, não existiam nem palavras em português para descrever, por exemplo, um time —se usava o ‘team’, em inglês”, diz Bonfá.
Em áudio, a mostra traz gols marcantes —o quarto na final da Copa de 1970, contra a Itália, por exemplo— e decepcionantes —o inesperado segundo do Uruguai na final de 1950— com narração de rádio de época. Em vídeo, há um especial com imagens raras das quatro copas em que Pelé atuou.
A exposição ainda aposta na interatividade. Em uma cabine, o visitante tenta gritar gol por mais tempo que conseguir. Há jogos físicos —como o desafio de isolar a bola como Baggio no pênalti da final em 1994— e digitais —games de adivinhação e pac-man, entre outros.
Além de estátuas realistas em tamanho real de Pelé e Zagallo, a mostra traz artefatos raros, cedidos pela Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. Entre eles estão os presentes que cada país-sede deu ao Brasil por participar da Copa e os únicos registros existentes da criação da seleção, em 1914.
A capital paulista conta com pelo menos mais três exposições relacionadas ao futebol na época da Copa.
O Instituto ViaFoto, em Pinheiros, exibe a mostra “Futebol: Território-Êxtase”. Ela reúne obras de mais de 20 fotógrafos que retratam o esporte praticado no dia a dia e sua relação com a cidade e a sociedade. O Sesc Pompeia inaugura nesta quarta (10) a “Colecionadores de Copa”, que reúne mais de 200 objetos populares relacionados à história da competição —futebol de botão, tampinhas de refrigerantes promocionais, bonecos, moedas, camisetas e outros artefatos, sob curadoria de Marcelo Duarte.
O jornalista, aliás, também assina a curadoria de “Amarelinha”, em cartaz no Museu do Futebol. A exposição, que reúne camisas originais da seleção, conta a história de como o Brasil passou a vestir o famoso uniforme canarinho.
As camisas foram obtidas a partir do esforço de cinco colecionadores que, para o curador, merecem elogios pela resistência em não vender os objetos, cobiçados ao redor do mundo. Há camisas originais de 1958 até 2022. “A gente só não conseguiu a de 1954”, ele diz.
Aquela foi a primeira Copa em que o Brasil vestiu amarelo, depois de usar branco nos mundiais anteriores. A traumática derrota para o Uruguai em 1950 decretou o fim do uniforme antigo. Então o jornal carioca Correio da Manhã propôs um concurso para que o público desenhasse o que seria a nova roupa da seleção.
O curioso, diz Duarte, é que o vencedor do concurso, Aldyr Schlee, era um desenhista gaúcho de 19 anos que morava na divisa de Brasil e Uruguai. “Ele se sentia meio brasileiro e meio uruguaio.”
É interessante ver como a opinião pública tratava a camisa branca —uma peça sem alma e sem identidade— e celebrava os detalhes e as cores do novo uniforme. Mais ainda é reparar nos muitos rascunhos que Schlee fez até chegar no resultado final.
Entre depoimentos em vídeo de Schlee e de craques do Brasil, as camisas são a grande atração. Painéis destacam a evolução dos materiais —do algodão do poliéster— e da estética dos uniformes ao longo das décadas.
São 18 camisas para 17 copas, porque Duarte quis usar as vestimentas de Ronaldo e Edmundo em 1998. “Elas contam a história da final contra a França —o Ronaldo vai para o hospital, o Edmundo é escalado e depois é ‘desescalado’.”
Nem todas são amarelas. Há espaço para três modelos azuis —o de Rivellino em 1978, o de Ronaldinho Gaúcho em 2002 e o de Vinícius Júnior em 2022. E há também um uniforme de goleiro —o usado por Waldir Peres na Copa de 1982. As camisas mais raras são as mais antigas —a de Mazzola em 1958 e a do craque Didi, o “príncipe Etíope”, em 1962.
Fonte ==> Uol



